terça-feira, 10 de maio de 2011

Infectologistas divulgam carta aberta expondo preocupação com ações voltadas ao combate à dengue no RN

Os infectologistas do Rio Grande do Norte estão cada vez mais preocupados com os problemas relacionados à dengue no estado. A Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia (SRNI) divulgou, neste fim de semana, carta aberta expondo a opinião sobre as ações do Poder Público para prevenir e tratar os problemas ocasionados pela dengue e expôs as opiniões acerca da estrutura disponibilizada atualmente. Para a SRNI, é necessário que os gestores municipais e estadual de saúde que coloquem em prática medidas de controle eficazes e financeiramente viáveis para o enfrentamento da atual situação de epidemia no Estado.

Apontando problemas referentes à carência de leitos, desabastecimento das unidades, deficiência nos serviços e falta de equipes completas nos serviços de atenção básica dos municípios, a SRNI defende o funcionamento permanente de comitês, estadual e municipais, de caráter deliberativo, “onde os problemas sejam discutidos de forma multidisciplinar e as ações propostas sejam efetivadas e divulgadas amplamente”.
Na opinião dos infectologistas, as ações tomadas com relação ao combate a dengue, neste momento, não são suficientes para solucionar o problema.

Confira a carta.

Carta Aberta à População e aos Excelentíssimos Senhores Secretários de Saúde dos Municípios e do Estado do Rio Grande do Norte

A Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia (SRNI), em reunião extraordinária realizada em 26/04/2011, deliberou pela emissão do presente documento como meio de alertar os cidadãos e autoridades de saúde norteriograndenses para a grave e atual situação de Dengue em nosso estado, que ameaça tirar a vida de mais pessoas, especialmente se não gerenciada corretamente. Tal assertiva foi corroborada pela vinda à Natal do Exm.º Sr. Ministro da Saúde, Dr. Alexandre Padilha, em março deste ano, em razão da expectativa de epidemia de dengue prevista para o estado no ano corrente, fato confirmado pelo crescente número de casos registrados até o momento.

Segundo os dados fornecidos pela Secretaria Estadual de Saúde Pública, desde 1º janeiro até 23 de abril de 2011 já foram notificados 10.941 casos suspeitos de Dengue, 69 suspeitos de Febre Hemorrágica do Dengue (FHD), 16 óbitos suspeitos e 01 óbito confirmado. O Hospital Giselda Trigueiro, no entanto, já notificou 339 casos suspeitos de FHD neste período, sendo a divergência de números ocasionada pela demora no fluxo de notificação dos casos pelos municípios.

Embora o número seja inferior ao das epidemias de 2001 e 2008, a gravidade dos casos é claramente superior em todas as faixas etárias, com acometimento crescente de crianças. Tal fato já era previsto pelos estudiosos do tema, considerando a natureza epidemiológica e clínica dessa doença, a exemplo do que já ocorre em outros países, principalmente os asiáticos. Assim sendo, diante de um cenário de maior gravidade de casos, torna-se imperativa a disponibilidade adequada de serviços de prontoatendimento e de leitos de terapia intensiva, além do criterioso manejo dos casos suspeitos desde a sua fase inicial.

No nosso estado, vários aspectos ligados à deficiência na assistência à saúde agravam, ainda mais, o problemático processo de enfrentamento da Dengue, alguns aqui ressaltados:
1. Carência de leitos clínicos, adultos e pediátricos, inclusive de UTI. O Hospital Giselda Trigueiro, serviço de referência para o internamento de casos graves, não possui número de leitos suficientes para atendimento da demanda atual.

2. Deficiência de serviços de pronto-atendimento 24 horas, em número e em qualidade suficiente para atender à população de Natal e outros municípios, gerando superlotação dos pronto-socorros dos maiores hospitais, em especial do Hospital Giselda Trigueiro.

3. Desabastecimento recorrente das unidades de saúde, especialmente na assistência básica, obrigando as equipes a não prestarem atendimento ou o fazerem de forma incorreta, realidade esta também vivenciada em vários hospitais.

4. Falta de equipes completas nos serviços de atenção básica dos municípios, muitas das quais não assistem doentes com Dengue por não atenderem livre demanda, isto é, o atendimento fica restrito apenas aos pacientes agendados, ao contrário do que recomenda o Plano de Contingência da Dengue (PCD) de 2010 e, muito provavelmente, recomendará o de 2011. Ressaltamos que até o momento não foram divulgados os planos de contingência do estado e dos municípios para 2011.

5. Equipes de saúde ainda não seguem corretamente as recomendações do “Protocolo de Manuseio do Paciente com Dengue”, do Ministério da Saúde, o que acarreta inadequações de manejo e agravamento das condições clínicas dos pacientes com conseqüente aumento do número de internamentos e óbitos.
 
6. Falta de clareza, por parte dos órgãos públicos, quanto à divulgação de informações atualizadas sobre o fluxo de atendimento aos pacientes com Dengue na rede de saúde, impossibilitando até mesmo o encaminhamento médico seguro e qualificado. Da mesma forma, a população também desconhece os locais aos quais possa se dirigir espontaneamente, pois não são divulgados nem horários, nem dias de funcionamento das unidades de saúde de livre demanda.

7. A iminente introdução do Vírus Den 4 em nosso Estado agravará a situação, gerando uma epidemia de proporções ainda maiores no ano em curso, ou no máximo até 2012.

Diante de todos estes fatos e das ações recentemente divulgadas pela imprensa local e implantadas pela gestão de saúde do município de Natal, queremos destacar ainda três outros aspectos que intensificam o estado de preocupação da SRNI, sucintamente registrados:

1. Decretação do “Estado de Emergência” para o município de Natal, em março de 2011, pela atual prefeita, onde está previsto o funcionamento de um Centro de Hidratação na Cidade da Esperança por apenas 90 dias. Não está claro que outras medidas serão tomadas e nem o que poderá acontecer após esses três meses. 

2. As ações de combate ao mosquito necessitam de intensificação através do trabalho dos agentes de endemias, pois o controle do vetor adulto, através da utilização dos “carros-fumacê”, se constitui em uma medida de impacto duvidoso, além do alto custo e elevado risco de prejuízo ambiental e pouco eficiente em períodos chuvosos, como o atual em Natal. Registramos ainda que as ações de vigilância entomológica que deveriam apoiar o controle vetorial e servir de base de estudo do comportamento bio-ecológico do mosquito, não estão sendo implementadas.

3. Não houve divulgação de um plano de ação e metas claramente definidas, referente à estruturação da atenção municipal de saúde que garanta o atendimento às necessidades da população a médio e longo prazo, nem com relação à Dengue, nem com relação a outros agravos.

Lembramos ainda que, conforme dados epidemiológicos registrados em epidemias anteriores, os principais focos do mosquito continuam sendo os reservatórios domiciliares de água, demonstrando que o abastecimento deficitário da água é fator fundamental na manutenção da Dengue como um dos graves problemas de saúde pública em nosso Estado.

Temos a convicção de que Dengue é uma doença cujas formas de controle já são bem conhecidas e dependem, necessariamente, de decisão política de governo, na medida em que este garanta à população boa estrutura de saneamento básico, destino adequado do lixo, serviços básicos de saúde eficientes, controle eficaz dos focos, conscientização da população, somado ao compromisso individual dos cidadãos, dos profissionais de saúde e daqueles que integram o poder público.

Por fim, sugerimos aos gestores municipais e estadual de saúde que coloquem em prática medidas de controle eficazes, cientificamente comprovadas e financeiramente viáveis para o enfrentamento da atual situação de epidemia de nosso Estado. Para tanto, defendemos o funcionamento permanente de comitês, estadual e municipais, de caráter deliberativo, onde os problemas sejam discutidos de forma multidisciplinar e as ações propostas sejam efetivadas e divulgadas amplamente, norteando as diretrizes que os gestores de saúde pública implementarão, em respeito às expectativas da população e condizentes com uma gestão literalmente comprometida com a melhoria das condições de vida dos usuários e com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

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